16º FESTIVAL PORTA-JAZZ


Sob o tema "A Terra vista do ar", o Festival Porta-Jazz propõe uma cartografia musical da empatia, da cooperação e da vertigem.
Vista do ar, a Terra expande-se em geografias múltiplas, um mosaico de monumentos físicos e humanos transformados em fenómenos superficiais. Também assim, no colectivo Porta-Jazz ganha-se espaço para, desse ângulo privilegiado, se alcançar toda a diversidade de paisagens e de práticas. Mais: vendo do ar, não interessa quão alto o palácio, o pedestal, a penthouse. Teremos, pois, um cartaz sem cabeças de cartaz, em que a beleza emerge sublime da colaboração entre artistas e as centelhas da invenção e da emoção se propagam livres pelos ares, prescindindo totalmente da lógica triste do melhor produto, do mais premiado, do mais genial, do mais famoso.
Disse Saint-Exupéry (que viveu e morreu vendo a Terra do ar): a máquina voadora não isola o ser humano dos grandes problemas da natureza, mas mergulha-o ainda mais neles. É este mergulho que também pretendemos assumir. Vamos em voo picado para que ora nos inquietemos ora nos maravilhemos. A programação do Festival divide-se em blocos, cada bloco propondo dois concertos contrastantes. O olhar abarca cordilheiras rugosas, desertos áridos, vastas metrópoles e florestas exuberantes. A vista do ar é a do mapa e das suas travessias potenciais, linhas de fuga desenhando epopeias; mas o mapa é visceral, a vertigem um desejo.
Ainda assim, queremos oferecer uma visão que, sendo do ar, não precisa de ser de cima para baixo. Uma visão que não é do Olimpo nem de divindades nas alturas, não é do panóptico vigilante nem do controlo central, não tem aviões de reconhecimento nem bombardeiros nem drones. Propomos uma vista aérea de responsabilidade colectiva (desde logo pelo futuro do planeta), de horizontes profundos que paradoxalmente nos aproximam, a vista do ponto azul pálido onde são inconcebíveis fronteiras, reis, competição, exploração.
A Terra vista do ar ganha distância e perspectiva. Ainda perto estão os lançamentos discográficos que o Carimbo Porta-Jazz acolheu no ano transacto—vamos já na edição número 119. Miguel Rodrigues com Antídoto, José Vale com Summer School, o duo de Sérgio Tavares e Renato Diz, o Pedro Neves Quarteto e o Ricardo Coelho Quinteto, AP com Lado Umbilical, João Martins com Oxímoro e Hery Paz com Fisuras, este último um trabalho interdisciplinar que resultou de uma co-encomenda da Porta-Jazz e do Festival Guimarães Jazz.
O Festival é ainda ocasião para novos discos. Mané Fernandes apresenta sQuigg: playground_etiQuette; o trio formado por Almut Kühne, João Pedro Brandão e Marcos Cavaleiro traz Stones and Seeds; e Vera Morais Eupnea, um grupo internacional de vozes e flautas. Ainda dentro das novidades, o baterista Zé Stark estreia uma encomenda por ocasião do Festival, “Go Tell It On The Mountain”.
Sendo o ar invisível, vamos senti-lo. Aliás, vamos ser o próprio ar! Pulmões, alvéolos, o corpo insufla, vibra, ressoa, propaga o som. O espaço cheio de ar transforma-se no espaço cheio de música. Repetindo o sucesso do ano passado, Ursa Maior reúne um grande número de músicos da Porta-Jazz e outros amigos. Desta vez em formato de coro, respirando e reverberando juntos.
A Porta-Jazz transpõe a vertigem da distância e associa-se a colectivos congéneres, cujos projectos acolhe: Improdimensija (Lituânia) com Leaking Pipes; Bezau Beatz (Áustria) com SATT; Orbits (Países Baixos) com Hristo Goleminov Diagonal; NICA (Alemanha) com Serpentine; e AMR-Genève (Suíça) com w.d.c.a.
Enchendo-se de ar quente, o balão eleva-se mais e mais, as maravilhas lá em baixo em miniatura. Sopra o vento. Em transportes assim suaves ou noutros nem tanto, do ar exploram-se terras distantes, dão-se mil voltas ao mundo.